quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pálio é penhor de liberdade

A Basílica de São Pedro acolheu na manhã desta terça-feira a celebração eucarística por ocasião da solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. O tema da homilia do Santo Padre foi a liberdade da Igreja, contida em toda a liturgia da Palavra daquela celebração. Comentando as leituras do dia, Bento XVI descreveu as provações físicas e espirituais sofridas por Pedro e Paulo e a ação libertadora de Deus, que os conduziu às portas do Céu. Na primeira leitura, é narrado um episódio específico que mostra a intervenção do Senhor para libertar Pedro da prisão; na segunda, Paulo diz-se convencido de que o Senhor, que já o salvou da "boca do leão", o libertará "de todo o mal". A experiência dos dois Apóstolos é significativa hoje para a Igreja, notou Bento XVI. Analisando os dois milênios de sua história, observa-se que – como tinha preanunciado Jesus – jamais faltaram provações aos cristãos, que em alguns períodos e lugares assumiram o caráter de verdadeiras perseguições. Todavia, advertiu o Papa, as perseguições não constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior é representado pela contaminação da fé e da vida cristã de seus membros e de sua comunidade, ferindo a integridade do Corpo místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e de testemunho e ofuscando a beleza de seu rosto. Esta realidade é descrita nas cartas paulinas, que narram problemas de divisões, de incoerências e de infidelidades ao Evangelho que ameaçam seriamente a Igreja. Em meio aos perigos, Paulo confortava os fiéis: os homens que realizam o mal "não irão muito longe, porque a própria estupidez será manifestada a todos". Há então uma garantia de liberdade assegurada por Deus à Igreja – liberdade seja dos laços materiais, que buscam impedir ou coagir a sua missão, seja dos males espirituais e morais, que podem ferir sua autenticidade e credibilidade. O tema da liberdade da Igreja tem também uma atinência ao rito da imposição do Pálio, afirmou o Papa, saudando os 38 arcebispos metropolitanos que receberam hoje a estola de lã.

A comunhão com Pedro e seus sucessores é uma garantia de liberdade para os Pastores da Igreja e para as próprias comunidades a eles confiadas. A comunhão com a Sé Apostólica assegura às Igrejas particulares e às Conferências Episcopais a liberdade no que diz respeito a poderes locais, nacionais e internacionais, que podem em alguns casos impedir sua missão por motivos políticos ou ideológicos. Além disso, o ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade, de modo que o Povo de Deus seja preservado dos erros concernentes à fé e à moral. O Pálio então se torna, neste sentido, um penhor de liberdade, analogamente ao 'jugo' de Jesus, que Ele convida a tomar cada um sobre os próprios ombros." Por fim, Bento XVI se dirigiu à delegação do Patriarcado de Constantinopla, tradicionalmente presente na celebração da solenidade dos Padroeiros de Roma. O Papa citou a promessa de Cristo de que as forças do inferno não prevalecerão sobre a sua Igreja: "Estas palavras podem ter também um significativo valor ecumênico, a partir do momento de que um dos efeitos típicos da ação do Maligno é exatamente a divisão no interior da Comunidade eclesial. As divisões, de fato, são sintomas da força do pecado, que continua a agir nos membros da Igreja também depois da redenção. Mas a palavra de Cristo é clara: 'non praevalebunt' – não prevalecerão (Mt 16,18)". Depois da homilia, o Pontífice impôs o Pálio pessoalmente a cada um dos 38 arcebispos. Entre eles, estavam dois brasileiros: o Arcebispo de Recife e Olinda, Dom Antônio Fernando Saburido, e o Arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa.

29/06/2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Santo Sudário: respostas para perguntas frequentes

Ao concluir no dia 23 de maio a ostensão do Santo Sudário, que desde 10 de abril recebeu milhões de peregrinos em Turim , vejam algumas das perguntas mais frequentes que surgem sobre esse “ícone” impresso com sangue, como disse Bento XVI, ao venerar o manto sagrado a 2 de maio na catedral de Turim.

1) Os evangelhos mencionam o Santo Sudário?
– Sim, os quatro evangelhos consideram o detalhe do manto que envolveu Jesus em sua morte:
“José, tomando o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se.” (Mt 27, 59).

"José comprou um lençol de linho, desceu Jesus da cruz, envolveu-o no lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha; depois, rolou uma pedra na entrada do túmulo" (Mc 15, 46).

"Desceu o corpo da cruz, enrolou-o num lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado." (Lc 23, 53).

"Os dois corriam juntos, e o outro discípulo correu mais depressa, chegando primeiro ao túmulo. Inclinando-se, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Simão Pedro, que vinha seguindo, chegou também e entrou no túmulo. Ele observou as faixas de linho no chão, e o pano que tinha coberto a cabeça de Jesus: este pano não estava com as faixas, mas enrolado num lugar à parte." (João 20, 4 - 7).

2) Quais características tem o lençol?
– É um sudário de linho manchado com 4,41 metros de comprimento e 1,13 de largura, tecido com um desenho de espinha de peixe de alta qualidade e pouco comum para a época. Apresenta diversas cicatrizes que foram deixadas pelo tempo como manchas, queimaduras e remendos.

3) Por que apresenta sinais geométricos?
– Pela ocorrência de um incêndio na capela de Chambéry, em 1532. Uma gota de prata caiu em um dos cantos, causando graves danos. Logo foi reparado. Algumas religiosas clarissas o remendaram. Também apresenta manchas de água na parte central, ao que parece causadas pela água com que se apagou o incêndio.

4) Esse Sudário apresenta a imagem impressa de um homem. Quais são sua características?
–É um homem com barba, que jaz morto. Pode ser visto graças a uma impressão e manchas de sangue por meio das feridas sobre o rosto, cabeça, mãos e corpo. Também se vê a parte dorsal do corpo coberta de feridas muito peculiares que atravessam as costas, pernas e descem até a planta do pé. A imagem que aparece é dupla: frontal e dorsal. Ainda que apresente a imagem deste cadáver, não se registra nenhum resto de decomposição. Portanto, se comprova que foi envolto de um corpo humano durante um breve período, ainda que suficiente para que se imprimisse uma imagem.

5) Apresenta sinais de coroa de espinhos?
–Não de uma coroa, mas de um capacete de espinhos. As fotos do Santo Sudário permitem realizar uma “autópsia” teórica, que demonstra que as gotas de sangue dispersas na cabeça derivam claramente de feridas de pontas cravadas em vários pontos. Também são vistas diversas gotas de sangue venoso e arterial que correspondem à complexa rede de veias e artérias da cabeça. A parte cervical aparece fortemente castigada, como se a coroa de espinhos fosse continuamente apertada contra a cabeça. Se o homem do Santo Sudário for Jesus Cristo, pode-se ver que usou a coroa durante o caminho do Calvário e também na cruz, adicionando maior suplício. É importante explicar que nenhuma documentação histórica fala que os homens crucificados foram coroados com espinhos.

6) Apresenta sinais de flagelação?
–Sim. O flagelo usado contra o homem do Santo Sudário era dilacerante e contundante, entrava na pele; Mel Gibson se baseou em estudos do Santo Sudário para a cena da flagelação de Cristo no filme “A Paixão”. Os estudos demonstram que, como mostra o filme, cada golpe desgarrava a pele, provocando sangramento. Os chicotes apresentam três pontas terminadas em duas bolas metálicas. Este tipo de flagelo foi encontrado em escavações arqueológicas, sobretudo nas catacumbas romanas. O número de golpes recebidos, segundo os estudos do Santo Sudário, foram cerca de 120, sem contar os que não foram possíveis de ser estudados por conta do incêndio de 1532. Cada golpe gera um impacto de 8 centímetros quadrados e o volume contundido de 12 centímetros cúbicos.

7) Por que se considera que o homem do Santo Sudário esteve crucificado?
–Porque há sinais de pregos nas munhecas, não nas mãos, como diz a tradição, que Jesus foi crucificado, com pregos nos tornozelos, não nos pés. Antigamente os crucificados eram atados à cruz por meio de cordas e com pregos. Também há sinais de uma lança que atravessou sua costela, a que se refere o evangelho de João. O homem do Santo Sudário carregou uma madeira horizontal da cruz atada nos braços, como também mostra o filme “A Paixão de Cristo”. Com o toque da corda em seu corpo se abriram novamente as feridas da flagelação. No homem do Santo Sudário estas feridas podem ser vistas na escápula, antebraço e ombro direito.

8) Por que são tão famosos os negativos dessa imagem?
–O fotógrafo Secondo Pia foi o primeiro a fotografá-lo em 1898. Ao revelar o negativo se deu conta que a imagem mostrava o rosto e o corpo do homem do Santo Sudário no positivo, o que indica que o rosto do homem foi gravado naquele Sudário em imagem negativa. Posteriormente foram feitas mais fotos e a impressão da imagem saiu com melhor qualidade e o negativo oferecia um contraste natural e uma nitidez impressionante. Poder-se-ia dizer que a impressão do Santo Sudário é como um negativo que se converte em positivo.

9) É certo que o Santo Sudário tem características tridimensionais?
–Sim. Em 1976 os físicos John Jackson e Eric Jumper, com Kenneth Stevenson, Giles Charter e Peter Schmacher, estudaram a fotografia do Sudário com um programa especial chamado “Interpretation Systems VP-8 Image Analyzer”, nos laboratórios de Sandia Scientific Laboratories, em Albuquerque, Novo México. O resultado mostrava que a fotografia tinha uma dimensão “codificada”, com profundidade, diferente de qualquer outro desenho ou pintura que pudesse ser submetido ao analisador de imagens. Por isso, medindo a intensidade deste colorido, pode-se perfeitamente calcular e reproduzir, como numa estátua, o relevo do corpo envolto por esta “tela”. Este resultado do VP8 não foi obtido nunca com nenhuma outra imagem artística.

10) Como o Sudário chegou a Turim?
–Segundo fontes mais tardias, um sudário com o retrato de Jesus foi levado para Jerusalém e Edesa (atual Urfa, ao leste da Turquia), onde foi utilizado segundo uma tradição para apresentá-lo a Abgaro V, rei de Edesa (reinou de 13-50), convertendo-se ao cristianismo. Mas depois que seu filho voltou ao paganismo foram perdidas as pistas deste lençol. No ano de 525 Edesa sofreu uma inundação. Durante sua reconstrução apareceu um sudário com a imagem de Jesus. Imediatamente foi reconhecido como o Sudário que cinco séculos antes foi trazido de Jerusalém ao rei Abgaro. A imagem de Jesus é descrita como “não feita por mãos humanas”. No ano de 943, o Sudário foi levado a Constantinopla, onde foi recebido festivamente pelos fiéis. Durante o saque de Constantinopla, em 1294, segundo o testemunho de Robert de Clary, o Sudário desaparece: “Nem grego nem francês sabe para onde foi o Sudário quando a cidade foi tomada”, diz. A documentação histórica voltou a falar do Santo Sudário em 1355, sob a propriedade do cavaleiro Godofredo I de Charny. Ao morrer, o Santo Sudário foi herdado por sua irmã Margarita, que não teve descendência. Em 1418, foi levado a Lirey, um pequeno povoado ao norte da França, para protegê-lo das guerras com a Inglaterra. Margarita, em 1453, entrega o Santo Sudário aos Duques de Savóia. Em 1502, é inagurada a Sainte Chapelle, em Chambéry, para custodiar o Santo Sudário. Em 1532 houve um incêndio nessa capela. Em 1535, o Santo Sudário viajou por Turim, Milão, Vercelli e Niza, devido à invasão das tropas francesas em Chambery. Em 1578, chegou a Turim para ficar. Mas só em 1706 foi transportado por um tempo a Genova. Também entre 1938 e 1953 foi transportada à abadia Beneditina de Montevergine, para protegê-lo dos possíveis ataques durante a Segunda Guerra Mundial. Logo regressou à catedral São João Batista de Turim, onde está atualmente.

11) De quem é o Santo Sudário?
–Desde 1983 é propriedade da Igreja Católica, pois após a morte do rei Humberto II de Savóia foi entregue ao Papa João Paulo II.

12) De quanto em quanto tempo são realizadas exposições do Santo Sudário?
–Não existe uma periodicidade. O manto se expõe em tempos especiais por vontade do Papa. Desde que chegou a Turim, foi exposto em 1737 com motivo do casamento do duque Carlos Manuel III de Savóia. Logo foi exposto novamente em 1868, e em 1898 para celebrar os cinquenta anos da família Savóia como reis da Itália. Em 1931, foi exposto novamente com o casamento do príncipe Humberto de Savóia (logo rei Humberto II). Em 1978 e em 1998, para comemorar o primeiro centenário das fotografias do Santo Sudário. Foi exposto mais uma vez no ano 2000, com motivo do grande Jubileu e agora em 2010 por vontade do Papa Bento XVI.

13) Um estudo em 1988 disse que se tratava de um falso medieval...
–É certo. Em 1988 foi extraído um fragmento do Santo Sudário para determinar cientificamente sua origem. Três laboratórios de Carbono 14 da Grã-Bretanha, Suíça e Estados Unidos calcularam que não podia ter mais de oito séculos. Imediatamente os meios de comunicação disseram que se tratava de um falso medieval. O então arcebispo de Turim, cardeal Anastasio Alberto Ballestero, reconheceu diante dos meios de comunicação que a peça não era autêntica. Contudo, muitos cientistas e arqueólogos começaram a suspeitar sobre como alguém, sem que existisse a fotografia, pudesse falsificar no tempo medieval uma imagem com tantos detalhes e que é possível ver tão claramente somente nos negativos das fotos, com tal exatidão anatômica patológica e cultural. Por isso as investigações continuam. O fragmento do Santo Sudário que foi utilizado para este estudo é muito pequeno. Foi recortado do canto superior que foi remendado e tocado por milhares de pessoas quando as exposições eram feitas sem nenhum tipo de proteção entre os séculos XIV e XIX. Por isso alguns pensam que os resultados desses estudos foram dados porque estavam muito contaminados.

14) Outros dizem que se trata de uma obra de arte.
–Impossível. Em 1978, foi realizado um rigoroso exame do corpo, os braços e o tórax onde se comprova que não foi usado nenhum tipo de pigmento para pintar o Santo Sudário. Ao contrário, as fibras simplesmente parecem descoloradas, como ocorre com um jornal quando se expõe à luz do sol. As aparentes manchas de sangue não apresentam nenhum pigmento diferente. Durante a análise se chegou à conclusão de que se trata de sangue real.

15) O que demonstra que este sudário estava em Jerusalém?
–Nos estudos realizados, foram encontradas partículas de poeira que incluem grãos de pólen de dois mil anos de idade de uma planta local de Jerusalém. Restos de pólen deste tipo também aparecem em alguns fósseis que foram encontrados no Mar Morto. Graças a outros tipos de grãos de pólen foi demonstrado o percurso que o Santo Sudário fez chegar até Turim.

16) Se sempre foi tão importante o Santo Sudário, existem documentos históricos que se referem a ele?
–Sim, muitos. Foquemos em um: há um manuscrito que se chamaCodex Prey. Está datado entre 1192-1195. Tem cinco ilustrações, que representam a crucificação, o declínio da cruz, a unção do corpo de Cristo na sepultura e Cristo ressuscitado. As ilustrações mostram um lençol em escala real, e com proporções idênticas ao Santo Sudário. O corpo de Jesus aparece completamente desnudo, como no Santo Sudário, algo insólito em um desenho do século XII e na mesma posição em que aparece o Santo Sudário. Algo muito curioso é que o tecido do manto que envolveu Jesus se apresenta no formato de espinha de peixe, muito pouco frequente nessa época. Apesar de que o desenho seja rudimentar, não deixa escapar esse detalhe. O desenho apresenta também os mesmos buracos que se formaram neste Sudário antes do incêndio de 1532.

TURIM, segunda-feira, 7 de junho de 2010



segunda-feira, 10 de maio de 2010

Oração oficial aprovada pela Conferência Episcopal da África do Sul para o Mundial de Futebol 2010.

Deus todo poderoso, criador de todas as coisas,
enquanto pessoas de todas as nações se congregam,
com paixão e entusiasmo para a Copa do Mundo de Futebol 2010,
que nós, sul-africanos, possamos ser bons anfitriões,
que nossos visitantes sejam hóspedes bem-vindos
e que os jogadores de todos os times sejam abençoados
com um bom espírito esportivo e com a saúde.
Que teu Espírito de equidade, justiça e paz
prevaleça entre os jogadores e participantes.
Que possam contribuir, cada qual à sua maneira,
de forma positiva para a prevenção, o controle e a luta
contra o crime e a corrupção, o vandalismo de qualquer tipo,
a exploração e o abuso de todos os mais vulneráveis.
Que aqueles que estarão longe de suas casas e de suas famílias
encontrem muita alegria por ocasião da celebração
de belos jogos de futebol e do belo jogo da vida
conforme Teu plano para o bem comum de todos.
Amém.

O casamento não é mais que um.

Professor de Antropologia no Centro Universitário Vilanova (Universidade Complutense de Madri) e capelão, José Pedro Manglano (www.manglano.org) é doutor em filosofia e combina seu trabalho sacerdotal com cursos, palestras e com a direção do Planeta Testimonio. Manglano é membro do Conselho Assessor do Observatório para a Liberdade Religiosa e de Consciências (www.libertadreligiosa.es).

Quantos casamentos existem?
Manglano: Não existe mais que um casamento. Não podemos esquecer que só se casa quem se casa. Ninguém casa! Quando fazem o ato livre de entrega total ao seu ser masculino e feminino, geram uma relação particular que chamamos "matrimônio". Consiste em uma união orgânica, de modo que dois formam "uma só carne". Isso - insisto - só pode fazer quem se casa. Só eles fundam ou criam um novo matrimônio.
Portanto, não há um matrimônio civil e outro religioso. Não. Isso são instâncias que reconhecem ou não o matrimônio, o único matrimônio. O Estado diz: "Se querem que eu os reconheça como matrimônio, se querem que minha legislação sobre o matrimônio se aplique, Eu - Estado - exijo seu consentimento diante de um funcionário, com tantas testemunhas, para preencher esse formulário...e o que for", a fim de estabelecer pela autoridade civil. Falamos então de um casal que realizou um casamento civil. Também a Igreja, para reconhecer aos cristãos seu matrimônio, pode exigir algumas formalidades a fim de começá-lo. Então falamos de casamento religioso, mas é o único matrimônio.

A aliança, o arroz, dotes... Conte-me: de onde surge tudo isso?
Manglano: Tudo isso? Impossível. Cada uma dessas tradições se formam em um lugar e momento determinado, se configura pouco a pouco, têm raízes também em outros lugares... Trata-se de expressões de linguagem simbólicas. Isto é, nas realidades abstratas ou espirituais - como pode ser o desejo de prosperidade, o desejo de descendência, a pertença de um ao outro...- se pode expressar e manifestar de maneira física, corporal e material. Os homens necessitam fazê-lo. Estes símbolos e rituais são profundamente humanos. Convém conhecer seu sentido e realizá-los com autenticidade. Do contrário, se convertem em formalismos ou em elementos ornamentais, que terminam por afogar com liturgias cheias de vazio.

O matrimônio é um sacramento de dois, enquanto os outros sacramentos são "individuais". Por que é assim?
Manglano. Efetivamente, são dois que "sofrem" a ação do Espírito de Deus, ação que faz de ambos uma só carne. Poderíamos falar que a ação transformadora que opera esses sacramentos é a de realizar uma unidade, uma comunhão total de vida e amor.A partir de seu ato livre por decidirem se unir, o Espírito constitui uma comunhão que a liberdade de ambos deverá realizar progressivamente em suas vidas. É um sacramento de dois no sentido de que antes são dois e é um sacramento de um no sentido que depois são um.

O matrimônio... se descobre ou se cria?
Manglano: Parece-me que essa é a questão moderna mais interessante. Em um século XX marcado pela filosofia da suspeita - suspeita antes de tudo que parece imposta ao homem -, decidimos reinventar o matrimônio. Levamos cinquenta anos experimentando, afirmando: ‘o matrimônio significa que os casais se amam, e ninguém tem que dizer como viver, nem ditar regras que rompam a espontaneidade livre da relação". A revista Time publicou recentemente que a última pesquisa do Pew Reserarch Center concluía que os jovens do milênio - quem tem 18 anos - resultam em algo convencional: 52% deles marcam como primeiro objetivo ser um pai exemplar e ter um matrimônio estável e fiel. É visível que os inventos têm gerado mais dor que felicidade. Poderíamos dizer que o matrimonio institucional - por contrapor ao matrimônio a la carte, fabricada pelo casal - segue sendo o ideal. Parece-me interessante estudar essa questão em diálogo com as letras das canções de Joaquín Sabina. Ele afirma que acreditava se tratar de estrelas e resultaram ser tubos de néon; isso é, que não se trata de um mistério mas algo de fabricação cultural. Contudo, estou convencido que o matrimônio, longe de inventá-lo, nos inventa. O matrimônio tem seu DNA particular, não estipulado por nada além da verdade do amor conjugal.

Historicamente havia casamentos entre recém nascidos... Melhoramos, não?
Manglano: Melhoramos muito, e também pioramos muito. O matrimônio, em si mesmo, é um modo de vida que faz bem e trás felicidade ao homem. O matrimônio resulta intensamente em um atrativo tal, mas está sempre ameaçado pela maldade do homem. O homem geralmente ataca - sem má intenção, mas ataca - a verdade do matrimônio para manipulá-lo segundo seu interesse. No século VIII o resultado dessa manipulação foi este: quando os missionários cristãos levavam o Evangelho aos povos bárbaros, na Bulgária e em outros povos germânicos encontraram a tradição de casar as crianças apenas recém nascidas. Era uma forma de alcançar as alianças familiares e seus benefícios econômicos ou políticos, adiantando o tempo. O protagonismo do casamento, então, não tinha o amor. Isso só chegou em torno do século XI, precisamente quando a teologia cristã estuda a Trindade e redescobre que Deus é um movimento eterno de amor; portanto, o amor é importante, e nos matrimônios deverá ser respeitado seu papel, seu insubstituível protagonismo. Sim, nessa percepção melhoramos. Mas ao mesmo tempo perdemos outras percepções, como o valor libertador da instituição, ou a necessidade da paciência e o "domínio de si" para realizar com fidelidade e em plenitude o projeto criado, ou o poder destrutivo da anticoncepção...

O senhor afirma que sem vínculos não há liberdade. É uma provocação?
Manglano: Eu gosto. Enquanto não se provoca a razão, o racionalismo nos limita de tal forma que o conhecimento nos afasta da beleza da vida real. Sim, não podemos reduzir os mistérios da existência do homem a fórmulas matemáticas e silogismos a todos os níveis. A verdade dos mistérios humanos, como é o fato de sua liberdade, são sempre paradoxais para a razão. Por esse motivo abordo a questão, de acordo com o método do caso no diálogo com Antoine de Saint-Exupery e sua mulher Consuelo. São duas pessoas ‘libertinas' que esperam que a felicidade lhes proporcione independência e autonomia. Saint-Exupery, como o Pequeno Príncipe criado por ele, viaja por distintos planetas da vida; conhece outras tanta rosas iguais a sua... Consuelo, também de abordagem libertina, sofre pelas ausências de seu marido e as relações que mantém com seus amantes. Saint-Exupery, no final, descobre uma grande verdade: sua rosa é única, nenhuma tem valor, mas sim aquela a quem foi entregue; só quem está cativado encontra sentido para a sua existência; é então quando a raposa lhe ensina que domesticar é estabelecer laços, criar vínculos. Muitos não sabem que o Pequeno Príncipe é uma carta de amor de Antoine a sua mulher, movida por um profundo arrependimento. É assim: se queremos independência, o matrimônio é um mal caminho. Se pretendemos ser felizes, este vínculo com nós mesmos, nos permite sermos livres realizando o projeto concreto que somos. Sendo mais intensamente esposo, sou mais livre, sendo mais inteira e elegantemente esposa, sou mais livre. A vida diz que é assim, e a razão diz que é o mais sensato... Assim são os mistérios humanos.

ROMA, DOMINGO, 9 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Família: Mães, colaboradoras especiais de Deus

Em maio, nossas atenções voltam-se naturalmente para a celebração do Dia das Mães. A data e suas comemorações são excelente oportunidade para fecundas reflexões em torno da vocação de nossas mães. A poetisa e filósofa alemã Gertrud von Le Fort aponta para a altíssima e sublime missão que o próprio Deus concedeu a elas: “Quando Deus tem o seu altar no coração da mãe, a casa toda se torna seu templo!”

Essa convicção ganha mais sentido quando a associamos à história de tantas mães que, nestes dois milênios de cristianismo, educaram grandes santos. Que o digam as mães de Santo Agostinho, de Santa Luzia, de São Sebastião, de São João Bosco e as mães de tantos santos e santas, ou de verdadeiros cristãos e cristãs que dignificaram a história da Igreja.

Missão na família e na sociedade

O Documento de Aparecida (456) destaca a singular missão das mães na família e na sociedade: “É urgente valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres. Isso não se opõe a seu desenvolvimento profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o que permite serem fiéis ao plano original de Deus que dá ao casal humano, de forma conjunta, a missão de melhorar a terra. A mulher é insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé. Mas isso não exclui a necessidade de sua participação ativa na construção da sociedade. Para isso, é necessário propiciar uma formação integral de maneira que as mulheres possam cumprir sua missão na família e na sociedade”.

Em seguida, o mesmo Documento (457) aponta para o “ministério” da mulher-mãe a serviço da vida: “A Igreja é chamada a compartilhar, orientar e acompanhar projetos de promoção da mulher com organismos sociais já existentes, reconhecendo o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas: receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dá-la à luz, sustentá-la, acompanhá-la e desenvolver seu ser mulher, criando espaços habitáveis de comunidade e comunhão. A maternidade não é uma realidade exclusivamente biológica, mas se expressa de diversas maneiras. A vocação materna se cumpre através de muitas formas de amor, compreensão e serviço aos demais. A dimensão maternal também se concretiza, por exemplo, na adoção de crianças, oferecendo-lhes proteção e lar”.

Especial colaboradora de Deus

Procriar filhos é um fato que se encontra em toda a escala animal. A maternidade vai muito além do fenômeno biológico, enfatizou Aparecida. É a sua dimensão espiritual que lhe dá a grandeza plena; através dela, a mãe se torna especial colaboradora de Deus, tanto na obra da criação quanto da salvação.

Lúcia Jordão Villela, num de seus livros – O assunto é mulher – fala dessa maternidade espiritual que sobrepuja a maternidade física. Que o digam as “madres” dos colégios religiosos (nos quais se formaram gerações e gerações), além de outras grandes educadoras, e tantas mulheres que nunca se casaram, não tiveram filhos de sua carne, e são MÃES admiráveis na ordem do espírito e do coração. Quantas tias, quantas catequistas, sendo mais mães desses filhos do que as próprias mães que os geraram! Quantas jovens missionárias de hoje, corajosas pioneiras dessa nova forma de irradiação da mulher, vivendo em comunidades no meio do povo, nas favelas das grandes cidades ou nas comunidades do interior, se inscrevem também nessa linha de generosa doação de vida, apontando para seus filhos “na ordem do espírito e do coração”, os valores e o verdadeiro sentido da vida!

Maternidade física e espiritual

A maternidade, física e espiritual, comporta alegrias, responsabilidades e muitos sacrifícios. A mãe, por vocação e missão, é chamada à constante doação e renúncia de si própria. Não doação e renúncia que a diminuem, mas que engrandecem e tornam mais plena e realizada a sua vida de mãe. “Ser mãe é ter tudo e não ter nada. Ser mãe é padecer no paraíso!” – já escrevera o nosso poeta Coelho Neto.

A Igreja tem insistido sempre nessa responsabilidade materna da educação religiosa dos filhos. As mães são sempre as primeiras catequistas de seus filhos. “Os pais são os primeiros e principais educadores, e a família, a primeira escola de virtudes.” (João Paulo II, em Familiaris Consortio, 36.)

Realidade de muitas famílias hoje

O Diretório da Pastoral Familiar (nº 24) pondera: “A dupla jornada de trabalho e o acúmulo de papéis assumidos pela mulher, seja em razão do empobrecimento, seja pela procura de uma realização pessoal, deixam muitas vezes sem a devida assistência as crianças e os adolescentes. A presença da mulher-mãe é fator determinante para um sadio crescimento afetivo e integral do filho. A Igreja tem contribuído para a emancipação e a recuperação da dignidade da mulher, mas ao mesmo tempo sempre tem afirmado que ‘a verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras profissões’ (João Paulo II)”.

Mães, educação e oração

À mãe cabe educar e formar a consciência dos filhos, passar-lhes os princípios éticos e os valores que contam, dar-lhes a retidão e a firmeza, a fim de que possam enfrentar os desafios que a vida vai-lhes oferecer, das mais variadas e surpreendentes maneiras.

Na “escola da mãe”, os meios que mais têm proporcionado resultados são o exemplo de vida e a oração. Oração pelo marido, pelos filhos, pela união da família, oração por todos. A oração é tarefa primordial da mãe. “A oração é a mais poderosa forma de energia que se possa suscitar; uma força tão verdadeira quanto a gravitação universal” – confirma o grande sábio francês, Alexis Carrel, convertido após uma peregrinação a Lourdes. De fato, os primeiros ensinamentos da fé cristã são aprendidos “nos joelhos da mãe e no colo do pai”.

Pe. Sebastião Sant’Ana, SDN
(Belo Horizonte -MG)